Sanatório Albergaria Grandella

Sanatório Albergaria Grandella
Montachique

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As ruínas do Sanatório Albergaria, que nunca foi concluído, situa-se junto à povoação de Montachique, freguesia de Lousa, no sopé do monte, junto à Estrada Nacional nº 374, no concelho de Loures.

Quem se aproxima de Cabeço de Montachique vindo de Loures pela desgastada EN374 não consegue deixar de reparar, a curta distância, nas ruínas que se erguem na encosta do cabeço. Os locais adoptaram-no como castelo, há quem lhe chame palácio, mas a estrutura imponente tem mais semelhanças com uma fortaleza. Ergue-se ali há quase uma centena de anos e encerra em si um bom punhado de histórias e de lendas.

Ruínas do Sanatório Albergaria - foto de Francisco Antunes
Ruínas do Sanatório Albergaria - foto de Francisco Antunes

História

Nos finais do século XIX e princípio do século XX, a tuberculose atingia proporções epidémicas um pouco por toda a Europa. Embora a vacina tenha sido criada por volta de 1906, não foi devidamente disseminada até ao final da metade do século XX. Esta, aliada à melhoria significativa das condições da saúde pública levou a que a mortalidade aliada à tuberculose descesse a pique até aos dias de hoje. Mas enquanto a medicina não evoluía e o mundo assistia atónito à disseminação desta doença respiratória e contagiosa, com maior incidência entre as classes mais pobres, eram precisas alternativas. Criaram-se então sanatórios, estabelecimentos que atingiam proporções dignas de autênticas prisões e que eram dedicados ao isolamento e tratamento da doença (apesar dos benefícios do “ar fresco”, 75% dos doentes internados nestes sanatórios acabavam por morrer no prazo de 5 anos, segundo dados de 1908).

Na zona limítrofe dos concelhos de Loures e Mafra, na localidade de Cabeço de Montachique, zona particularmente apreciada e elogiada pelos “bons ares”, existiram pelo menos cinco estruturas deste tipo.

Corria o ano de 1918 e Francisco de Almeida Grandella, em nome da “Sociedade dos Makavenkos” doava um terreno de 3.500 metros quadrados para a construção de um edifício destinado ao tratamento e internato temporário de doentes de tuberculose. Juntou-se o gesto solidário do arquitecto Rosendo Carvalheira, que criou um grandioso projecto para o edifício. "O conjunto do projecto é muito simples, gracioso e pitoresco e fortemente inspirado em motivos portugueses", escrevia a “Arquitectura Portuguesa” em Julho de 1918.

O plano inicial previa quartos para 36 doentes em regime de internato gratuito, quartos para vigilantes, uma grande cozinha, refeitório, varanda de cura, farmácia, sala de pensos, arrecadações, banhos, forno crematório para pensos, desinfecção e enfermaria de isolamento. Para ajudar a custear os encargos da obra, seriam criadas também 14 moradias independentes, que também procurariam dar resposta "à grande falta de habitação para os que, embora com meios para se tratarem, careçam de aí se instalar".

"Em Cabeço de Montachique, o salutífero logarejo do concelho de Loures, foi lançada a primeira pedra do edifício destinado a um sanatório para candidatos á tuberculose, benemerita iniciativa da simpatica Sociedade dos Makavencos, tendo cedido bizarramente o terreno o sócio sr. Francisco Grandela. O sanatório ocupará uma área de 3.500 metros quadrados, incluindo os jardins e ficará a meia encosta do cabeço, a uma altitude de 200 metros."1

Rosendo Carvalheira acabaria por não sobreviver para assistir ao lançamento da primeira pedra deste grandioso feito. A esta festa, compareceu a aristocracia da época, o que não impediu que desde logo existissem algumas limitações no que toca ao financiamento da obra. Até há alguns anos, dizia-se que junto às fundações do edifício se tinha enterrado uma caixa onde o povo anónimo colocaria os seus singelos donativos. Um cofre bem seguro, à prova de roubo. Um tesouro.

O projecto era vendido a 5 centavos. Rezava que o Sanatório Albergaria pretendia “minorar quanto possível a miséria e a doença no meio da crise tremenda por que está passando o mundo inteiro” e apelava “aos novos ricos, que têm feito fortunas fabulosas com os lucros da guerra” para que doassem “uma pequena parcela dessa enorme riqueza” às vítimas dessa mesma guerra. Porém, o apelo não teve resposta e depressa se parou com a construção, tendo a ideia morrido ali. Todas as expectativas geradas em torno do projecto acabaram por sair goradas.

Mesmo sem o Sanatório Albergaria, a zona continuou a ser preferida e frequentada pelos doentes de infecto-contagiosas, em busca de ar puro e de melhores condições de vida. O relativo abundar destas infraestruturas, à medida que a região se tornou mais habitada, contrariava o espírito de criaçáo delas próprias, ao aumentar o risco de contágio com as populações. Os últimos sanatórios da região encerraram em 1971 e os edifícios foram progressivamente convertidos para outros fins. Um centro de recuperação psiquiátrica do Ministério da Saúde e uma escola, por exemplo. Outros foram abandonados e ficaram em ruínas. O Sanatório Albergaria continua de pé, tal como foi deixado há quase cem anos.

E o cofre escondido? Continuará por lá?

Francisco de Almeida Grandella

Nascido em Aveiras em 1853, Francisco de Almeida Grandella é conhecido principalmente devido aos armazéns com o seu nome que até há alguns anos pontuavam no Chiado, em Lisboa. Homem de política, interventivo, apoiante da classe operária, não hesitou em lutar contra o poder instituído e contra as classes mais favorecidas quando, ao estabelecer a sua primeira loja, pensou em tornar acessível ao povo o que era até então privilégio dos mais abastados: a moda. Inaugurando o conceito de venda por catálogo e revolucionando todo o sistema de produção, transformação e comercialização têxtil, praticando preços cada vezes mais competitivos, Grandella conseguiu, até a Primeira Guerra Mundial abanar os alicerces das suas lojas e do próprio país, posição de destaque no panorama económico e social do país. Fundou escolas, criou fábricas, ajudou o próximo, prosperou e partilhou. Viria a morrer na Foz do Arelho, em 1934, solitário e abandonado pela família.

Os Makavenkos

Caracterizada por uma clara pluralidade de ritos, graus, símbolos, conceitos e percursos históricos, a Maçonaria – mesmo em Portugal – inspirou sempre a existência de diversas sociedades secretas no seu próprio seio, paralelamente às suas instituições representativas. Um desses casos foi a Sociedade dos Makavenkos, agremiação aparentemente gastronómico-filantrópica existente em Lisboa entre 1884 e cerca de 1919, nominalmente relacionada com uma etnia mítica proveniente do Japão e objectivada para o exercício da beneficiência social e o culto da beleza feminina. Fundada por Francisco de Almeida Grandella, reunia-se nas caves do teatro lisboeta Condes e integrava outras personalidades maçónicas como Rafael Bordalo Pinheiro.

É conhecida a sua intervenção na conspiração revolucionária que conduziu à implantação da República em 1910, assim como o subsídio da construção de empreendimentos de utilidade pública no âmbito da saúde e um altruísmo sem par (auxiliavam órfãos pobres, artistas desamparados e doentes carenciados). Também não faziam questão de guardar segredo no que toca às suas extravagâncias e excentricidades: nos vetustos jantares que serviam, faziam questão de reunir belas mulheres – sobretudo actrizes – e eram acompanhados por uma orquestra de músicos de olhos vendados.

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